Os pais são para educar e os avós para deseducar, né?

 
Isabel Parolin

Para minha mãe, meu exemplo de avó.

Não! Decididamente, não!
Tenho ouvido a afirmativa acima com mais frequência, desde que me tornei avó. Aliás, sou quatro vezes avó e esse acontecimento me confere, no mínimo, um pouco de experiência.
Percebo que as pessoas, ao afirmarem que os avós podem deseducar, buscam em mim uma cumplicidade que eu não posso dar. Não concordo que os avós podem deseducar e mais, acredito que todos que convivem com crianças, independente do seu grau de parentesco, têm o dever de serem educadoras, mesmo que sem essa intencionalidade ou compromisso – temos todos de dar bons exemplos.
Diante dos novos papéis sociais que as mulheres, principalmente, têm desenvolvido, a tarefa de educar filhos tornou-se mais árdua e um investimento que requer, dentre tantas outras coisas, parcerias. Essa divisão de tarefas tem acontecido dentro de casa, entre os familiares e fora dela, numa rede de apoio.
A escola tem sido a grande parceira da família contemporânea. As creches, berçários, escolas de Educação Infantil são espaços privilegiados que, além de atender as necessidades imediatas de cuidados, favorecem uma formação educativa, diferente da familiar. O mesmo acontece quando essa criança é maior ou se torna um jovem: a escola tem sido importante formadora.
Contudo, é indispensável que a família não esqueça que a responsabilidade de educar uma criança é da família. A escola é importante parceira,
Os avós são pessoas que, por serem próximos dos pais, têm (espera-se) liberdade para pequenos cuidados (ou eventuais grandes tarefas), pequenas decisões, grandes passeios, grandes brincadeiras, inesquecíveis lanches, além de (a grande maioria) disponibilizarem carinho e atenção aos netos.
Quando os avós convivem com os netos, no dia-a-dia, muito frequentemente, acabam caindo numa armadilha, causada pela indefinição de papéis. Essa situação é ruim para eles e, pior ainda, para seus netos. A experiência tem mostrado que os avós ou se tornam permissivos demais, não cumprindo com o esperado papel formador, ou se tornam “os pais-substitutos”, deixando os netos sem a importantíssima figura dos avós.
É diferente se os avós forem os únicos educadores da criança! Nesse caso, deixam de ser avós e precisam assumir o de pais.
Outra situação que se torna motivo de queixa, tanto dos pais quanto dos avós, é a diferença de encaminhamento que os avós dão aos netos, da que os pais idealizam e dão aos filhos… ficando, no meio dessa divergência, a criança.
Viver a diferença é importante e só fortifica a criança. Sobretudo, é fundamental que os diferentes papéis e as respectivas diferenças estejam claras para todas as partes: pais, filhos e avós. Ex: “Na casa da vovó pode, mas aqui, em casa, não!” Ou, “A vó não gosta que mexam nos enfeites dela.”
Em tempos que os pais têm de trabalhar muito, estudar por mais tempo e qualificar-se constantemente para o mercado de trabalho, é comum não terem tempo para dedicarem-se aos filhos como gostariam e sonharam. Pois bem: nada melhor que o carinho e atenção dos avós, para não deixar uma lacuna afetiva em aberto. Não é substituição: ao invés de… É adição.
E por falar em soma, a escola costuma ser a melhor opção quando se pensa em preservação de papéis. Quando a criança vai para a escola, ela tem um período que é só dela e os familiares, também.
Assim, os avós podem ficar para as tarefas mais prazerosas como buscar na escola, servir as refeições, acompanhar o banho, contar histórias, levar à um lanche, etc. Dessa forma, além da criança ficar aos cuidados de profissionais especialistas em infância, ela tem os avós em seu papel afetivo.
Só o amor não educa, vale lembrar.
Ser educador é ter intencionalidade, clareza de objetivos, afetividade e saber apresentar as regras do bem viver, para que a criança compreenda o mundo em que ela vive.
A educação parental é indispensável, mesmo que a mãe/pai more com os avós, ou vice-versa. É fundamental a criança reconhecer seus pais como pais e seus avós como avós, ambos como autoridade em suas vidas, apesar de terem compromissos diferentes.
Os avós precisam entender que eles já foram pais e que a vez de desenvolver esse papel é de seus filhos. No entanto, cabe aos avós ajudar os pais a serem melhores pais.
Em verdade, cada pai e mãe precisa trilhar o caminho que os tornará, igualmente, experientes… Até o dia que se tornem avós e vivam as delícias desse papel.
Uma criança para bem se desenvolver, precisa de uma comunidade educadora e de tudo de bom que seus avós possam oferecer.

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