O WHATSAPP E AS COMUNIDADES DE MÃES

Isabel Parolin

Não ter resposta é confirmar-se ausente. Viver exige perguntas e eu, mudo, não sabia responder. (QUEIRÓS, 2011, p.30)

Recebi o e-mail que reproduzo abaixo, na mesma época que estava lendo um livro inspirador, de onde tirei a citação que inicia o texto. Ambos aguçaram minha memória para algumas vozes guardadas aleatoriamente e que, ao se juntarem, começaram a fazer sentido.

Fui ao seu site em busca de algum artigo que pudesse me apoiar para uma reunião que terei de fazer com um grupo de mães, que eu tenho tido repetidos problemas. Sou orientadora educacional de uma escola particular e esses grupos de WhatsApp tem sido enlouquecedores. As coisas que acontecem na sala de aula passam a ser discutidas fora da escola, pelo grupo de mães que não estavam em sala, repercutindo nas crianças e na rotina escolar, de modo inconveniente. As mães pensam que, sendo a maioria, estão com a razão. O que nem sempre, a maioria do grupo do Whats, representa a maioria mesmo. Muitas mandam carinhas sem ler ou refletir sobre o que aparentemente concordaram. Tem sido difícil essa interferência. Você não acha que é invasão? Você pode colaborar dando sua opinião, já que sua área de estudo é a relação entre a família e a escola? Minha reunião será depois de amanhã. Agradeço-te e aguardo.

Sim, quero colaborar. Esse movimento, tão atual, que são relatados sobre os diferentes olhares, tanto da família, quanto da escola, propiciam diversos caminhos reflexivos. Escuto as conclusões e queixas, que advém desses grupos e penso na repercussão e nas consequências desses movimentos nas salas de aulas. Essa prática das mães se comunicarem entre si, via WhatsApp, se popularizou em todo o Brasil e nos diferentes seguimentos da sociedade. É a primeira coisa que as mães fazem, no inicio do ano: criar o grupo.

Antes de tudo, quero salientar os inegáveis benefícios que a farta informação oferece à sociedade, além da facilidade de aproximação que a web e suas diferentes manifestações propiciam. Os grupos que funcionam bem não são, nesse espaço, objeto de análise. Pretendo partilhar, nesse pequeno artigo, os perigos desses grupos, se não forem administrados de modo responsável e com bom senso. O meu olhar investigativo foi direcionado à dinâmica de sala de aula e à qualidade das relações que lá se estabelecem.

Imagino que o caminho natural seja respondermos: Qual o objetivo desses grupos? Entendo que seja socializar, confraternizar, informar, trocar ideias, inteirar-se do que as outras famílias percebem, avaliam e pensam a respeito do andamento da turma e, além disso, aproveitar as inúmeras possibilidades relacionais que a sala de aula oferece a todos os envolvidos. Perfeito…  se todos que compõem o grupo tiverem clareza da função social da escola; de como se constrói o aprendiz; do valor da escola para o aluno (notem que escrevi aluno e não filho) e, sobretudo, do importante papel da professora, não somente como gestora da sala de aula, mas como mediadora das relações de aprendizagens que acontecem a partir da qualidade dessas mesmas mediações.  Os alunos, juntamente com seus professores, constroem a sua dinâmica a partir de contratos estabelecidos entre eles e destinados a eles. Ou seja, a sala de aula é espaço do aluno e a mãe deveria respeitar o grupo no qual o filho está inserido. O grupo é deles, os pais são coadjuvantes.

Partindo-se desse olhar, penso que a orientadora educacional, autora do e-mail, está correta: é invasão. Interferência que vem de fora do grupo da sala de aula. Traz normas para o grupo, sem sequer ser debatido pelo grupo. Pode desautorizar a professora, enfraquecer o grupo em sua autonomia. Nesse momento surge outra pergunta: E as mães precisam estar inteiradas de tudo que acontece entre os componentes do grupo de sala de aula? O que, muitas vezes acontece, é que esses grupos de Whats funcionam como espiões da sala e da escola e não como grupo de apoio. Claro que os pais podem colaborar: se a escola pedir ajuda, quando perceberem algo extraordinário, mas sempre com e para a equipe da escola e não fora dela.

Para aquecer ainda mais, compartilho com o leitor alguns outros depoimentos que, espero, colaborem na tentativa de responder o e-mail.  Objetivo que a leitura dos casos possa, per si, tornar-se fonte de reflexões construtivas, que motivem melhor uso desses grupos.

Caso 1: Mãe: “Estou preocupada com meu filho. Ele tem poucos amigos.”

Psicopedagoga: Ele se queixa pra você que não tem amigos? 

Mãe: “Não, mas eu vejo pelo grupo do Whats que os meninos marcam passeios, churrascos e ele não é convidado.”

Psicopedagoga: Ele nunca é convidado pra nada? Continuei, querendo entender.

Mãe: “Não, ele até que recebe convites, mas não a maioria deles.”

Psicopedagoga: E ele precisa ser sempre convidado? Se ele não se queixa…

Mãe: “… (suspiro) Não sei. Fiquei na dúvida.”

Caso 2:  Menino 8 anos: “Minha mãe me proibiu de brincar, no recreio, com o XX. A mãe dele foi grossa com a mãe no Whats e agora elas estão combinando coisas por um outro grupo e estão deixando a mãe de fora. A mãe disse que essa turminha ( do Whats) é #$% e eu não posso mais ser amigo dele.”

Professora do Menino: “Mas vocês sempre se gostaram, são tão amigos… Ele está te procurando, não está? Então é sinal que ele não está nem ai para o que aconteceu…”

Menino: “Mas como eu vou desobedecer a mãe?”

Professora: “E você não vai mais brincar com ele por causa disso? Vocês deixaram de ser amigos? “

Menino: “Eu ainda gosto dele, mas a mãe dele é uma desocupada que vive só pra ficar no WhatsApp e minha mãe trabalha duro…”

Professora: “Esse motivo é suficiente pra vocês romperem a amizade? E quem te disse que a mãe dele é “desocupada”? Você não acha que isso não deve ser sua preocupação?”

Menino: “A mãe disse. Ela está até querendo sair do grupo…  Ninguém a defendeu… Uma pena, eu gostava muito do XX.”

Caso 3:  Diretora: “Os grupos de mães do WhatsApp tem sido muito mais terríveis que produtivos.. Mais atrapalham que ajudam. Vira uma fofocarada, um disse-me-disse. Um tal de fulana também acha… Nós resolvemos que… Nossa grupo chegou a conclusão que… Deus me livre! Uma trabalheira danada. Elas acabam interferindo num universo que não está na competência delas. Fazem julgamentos e avaliações sem, verdadeiramente, se interarem da situação.”

Caso 4 – Mãe: “Nosso grupo de mães do Whats já percebeu que a professora da turma não é boa. A maioria dos alunos não está entendendo a matéria, ela dá muita lição, sobre coisas completamente fora do mundo das crianças. Vamos pedir que a diretora substitua a professora.”

Caso 5 – Uma representante das Mães para a professora da turma: “Nós marcamos tudo pelo WhatsApp. Se ela não lê o que postamos, ela que saia do grupo. Agora dizer que nós não avisamos… foram mais de 150 postagens. Tenho aqui comigo, quer ler?”

Professora da turma: “Pois é, mas no tipo de trabalho dela, ela não consegue acompanhar a profusão de mensagens que vocês trocam. Por isso ela veio queixar-se. Os combinados têm de passar pela escola, pelas agendas das crianças. Eu, que sou a  professora da turma, também não sabia!”

Vamos pensar sobre essas situações?

No caso 1 fica claro que a mãe desestabilizou-se diante de algo que acontece fora do seu núcleo de relacionamento. Na escola o filho dela tem amigos e fora também, num outro contexto. Por que as famílias precisam ser amigas dos amigos dos filhos? Os filhos não podem ter seus amigos e os pais os seus? O menino em questão é mais reservado, prefere relacionar-se com um número menor de crianças. Qual o mal disso?

Que pena que o menino do caso 2 esteja sofrendo as consequências de algo que aconteceu em outro contexto. As crianças, na escola, são amigas! Os pais não precisam ser amigos, também. Basta que respeitem as escolhas dos filhos. Não há nada que desabone a amizade entre eles. O desentendimento foi dos adultos e fora da escola… A amizade passa por outras questões, que não apenas convivência.

A diretora do caso 3 nos faz lembrar que a escola é uma instituição que está entre a família e a sociedade. Ela reproduz os valores da sociedade, mas é espaço protegido. Valioso lugar para as crianças aprenderem, em grupo, a serem individualidades. A família faz parte com seus valores, cultura, especificidades, etc. Porém, o distanciamento da família ajuda as crianças a construírem sua pertença a um grupo que não é sua família. O sentimento de pertencer ao grupo de sala de aula ajuda as crianças a perceberem-se pertencentes a sociedade na qual vivem. As discussões, sem o embasamento da situação, dos fatos e clima emocional que aconteceu em sala de aula, podem virar fofocas sem fundamento, pouco colaborativas e, às vezes, desagregadoras.

Que conceito terá a mãe do caso 4 sobre ser uma professora competente? Quais as qualidades e a formação que tem de ter uma professora? Penso que os pais podem auxiliar bastante sobre a repercussão do desempenho de uma professora, contudo, acho perigoso o grupo ter resolvido  “pedir que a diretora substitua a professora”. Se as crianças ouviram os comentários, como elas irão desempenhar, em sala de aula, seus papéis de alunos? E se a diretora, realmente, tirar a professora? Como repercute essa demonstração de poder para a comunidade e pra os outros professores? E se a professora permanecer, como fica o clima? O que significa ser boazinha? É fazer o que a criança quer (ou os pais querem), ou propor o que as crianças precisam? Enfim, antes de resolverem algo (será que resolvem?), precisariam fazer uma reunião com a equipe da escola para alinhar conceitos, promover compreensão e contratar um código de conduta.

Observando as pessoas em seu dia-a-dia, não consigo imaginar grandes propostas reflexivas a partir de  conversas via WhatsApp. O mundo da urgência, da impulsividade, da resposta imediata pode comprometer os rumos da educação das crianças e jovens.

Enfim, para abrir a discussão, deixo o seguinte post: Mães, cuidado para não perder “a mão” na educação de seus filhos. A escola é importante por ser múltipla e diferente da família. É valioso espaço entre a família e a sociedade e seu filho precisa pertencer, plenamente… e os pais precisam confiar nela, plenamente, também. Vale a pena levar esse tema para ser discutido nas reuniões de pais. Não podemos, em nome da boa intenção, despotencializar um espaço tão importante de aprendizagens, com questões ou opiniões que estão desconectadas da pauta da sala de aula.  ☺☺☺

RAM
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