Novo artigo na Revista Aprendizagem, nº27 / 2011.


Confira o novo artigo de Isabel Parolin para a revista Aprendizagem, nº27 / 2011.

A formação das novas gerações e a relação entre a família e a escola.

Pais, professores e diretores precisam entender a realidade dos jovens da atual geração para educá-los da melhor maneira possível. Conheça uma história que vai ajudá-lo a entender melhor essa ideia.

Estava em meu consultório, terminando minhas atividades e pronta para almoçar, numa fria manhã do mês de agosto, quando uma senhora me pediu para atendê-la em caráter de urgência. Estranhei o pedido, posto que eu não atendo sem hora marcada e não tenho urgências no atendimento psicopedagógico.
Diante da angústia e insistência dela e lendo o encaminhamento que a escola fez, consenti (deixando o meu
estômago de lado) em atendê-la em sua “urgência”. Ela estava acompanhada de uma jovem de 15 anos. Ambas expressavam no rosto o incômodo que as acometia. A jovem sequer olhava para a mãe e a mãe “bufava”, ao me contar o motivo pelo qual ela tinha me procurado. A orientadora da escola da filha tinha indicado meu nome, diante da situação que a mãe expôs à escola. Contou-me ela: “Preciso entender para poder me acalmar” (lágrimas)… “Estou arrasada com o que essa ali me aprontou”, apontando para a jovem que continuava não olhando para a mãe. “Ontem (domingo) foi o aniversário de 80 anos da mamãe. Eu planejei essa festa nos mínimos detalhes: arrumei acomodação para que meus parentes distantes pudessem
vir (alguns deles são mais velhos que a mamãe). Tenho uma irmã que mora nos EUA, que veio com o marido e os dois filhos (uma despesa enorme); um sobrinho que mora na Nova Zelândia veio (faltou a aulas que não poderia faltar); um tio, irmão da mamãe, (que está doente e é mais velho que ela) que mora no interior de Minas veio também; enfim, arrumei
as acomodações, os deslocamentos, o almoço num clube, fotógrafo, música, decoração, docinhos, lembrancinhas… tudo!
Foi uma trabalheira! O ponto alto da festa era a missa, pois somos muito religiosos. Compusemos uma paródia, homenageando a mamãe, para cantarmos na hora do ofertório. Bem, o que aconteceu? Na hora de sairmos para a missa, essa ali…”, e novamente apontou para a jovem que continuava de lado, sem olhar para a mãe, “… me apareceu com uma mini blusa e uma calça que ficava quase lá em baixo do ventre. Um horror! Disse a ela que o padre não a deixaria subir ao altar, para cantar a música, com aquela roupa, mas ela não aceitou, bateu o pé e foi com aquele traje, inadequado para uma missa e para o frio que fazia. Bem, não deu outra, o padre não permitiu que ela participasse e na foto que tiramos do coral cantando a paródia, ela não apareceu! Eu preciso que você a atenda, pois o episódio de ontem foi a gota d’água… Depois de tudo que eu fiz e trabalhei, ela não participou da hora mais importante das comemorações.
Nossa família é mineira e damos muito importância à missa, à família reunida, mais do que tudo… “ (e desandou
a chorar). Confesso que achei a história interessante e me toquei com a emoção da mãe. Fiquei pensando no que já tinha sido perdido naquela família!

A jovem permanecia de lado, dizendo corporalmente que não queria participar daquele momento… E percebi que ela
estava sofrendo também. Pedi para a mãe sair da sala e, à queima roupa, encarando-a, perguntei o que tinha acontecido.
Ela olhou-me como quem diz “você não ouviu?” e afirmou, rispidamente: “A mãe já te disse, foi aquilo que ela contou! Não
cantei a música e nem participei da missa. A foto eu vou resolver, pois eu sei colocar a minha cara no coral, mas o resto não vai dar…” Disse isso, já desarmada e parecendo arrependida.

Ao perceber que ela estava correspondendo a minha abordagem, continuei perguntando: “Você sabia que a roupa ia lhe
dar esse problema todo?” Ela me olhou e afirmou, mexendo-se inteirinha: “Claro que não! A mãe faz tanto drama, sempre, que eu achei que era exagero dela…” “Então, você não acreditou nela? Nunca vão à missa juntas?” – quis saber, já que a mãe afirmou serem bem religiosos. “Não! Nem com ela e nem com o pai. Aliás, nem imaginei que teria tanta gente… Eles sempre exageram tanto… Tudo é ruim, é perigoso…” “E a sua avó?” – perguntei, querendo entender melhor. “Adoro ela e estou chateada por causa dela. Ela é uma fofa, mas se não fosse o drama da mãe, ela nem teria percebido, pois tinha muita parentada… Com a vó já me entendi… Mas a mãe ter ido à escola e contado para a orientadora o que aconteceu, é demais! Nada a ver! Você não acha?” Acho, acho demais, mesmo! Essa história ilustra perfeitamente o tema que nos serve de título e pode ser o pano de fundo para compreendermos algumas situações que a família e a escola vivem ao educar as novas gerações.
A formação das novas gerações se pauta na dos pais, que oferecem os modelos e as orientações para que as crianças e
jovens tenham aporte para, a partir do que aprenderam em família, poderem desenvolver uma forma de viver tipicamente
sua. Vale dizer que, para se inserir na sociedade de forma harmoniosa e feliz, o sujeito carrega sua história familiar, os
valores, conceitos, crenças e conhecimentos que construiu em família, na pertença familiar, num jogo relacional com o que ele vive com seus pares. Na interação entre as aprendizagens construídas em família, o que aprende na escola e com seus amigos e comunidade, ele se constituirá uma pessoa.
Educar uma criança é, sobretudo, encaminhá-la, promovendo aprendizagens que geram desenvolvimento. Esse processo
educacional, que é um ato relacional e de envolvimento de ambas as partes, gera os instrumentos para o aprendiz entender o mundo e seu funcionamento, da mesma maneira como produz uma forma de interagir com o seu contexto. Mesmo pais ou educadores muito jovens, quando desenvolvem seus papéis parentais ou de ensinantes, sentirão estranheza em algumas formas de manifestação das crianças. O entendimento das diferentes situações e conceitos do contexto social está diretamente relacionado à maturidade e identidade desenvolvida, que repercute na compreensão do mundo a partir da experiência reflexiva das crianças e jovens diante de uma história que começou bem antes deles.
Tem uma tirinha da Mafalda que eu acho muito interessante. Para consolar e ajudar a Suzanita, que não compreendia seus pais, a Mafalda pergunta: “Quando você entra no cinema, na metade do filme, você compreende?” Ela afirma que não. “Pois bem, conosco é a mesma coisa… Quando nós nascemos, nossos pais já tinham começado!”
É isso, quando essa jovem nasceu, seus pais já eram “muito religiosos”, já viviam uma série de coisas que eles não passaram para a filha. Se a jovem tivesse participado mais da vida dos pais – que é sua família -, ela teria conseguido aquilatar a importância do momento e a delicadeza da situação. Se essa jovem vivesse e partilhasse de alguma forma as crenças de sua família, saberia que a igreja tem um ritual, não acharia os pais tão exagerados e confiaria mais neles.
Em outras palavras, a jovem não conhecia o começo do filme porque sua família não contou a ela, por isso tem dificuldade
para partilhar a construção da continuidade dessa história. A escola, diante do relato da mãe, encaminhou para um atendimento fora dela justificando que a aluna era adequada e que ela desempenhava a contento o papel de estudante. Isso nos sugere que a escola estava conseguindo relacionar-se, adequadamente, com ela.
Vale lembrar que a escola e a família são parceiras na construção do cidadão. Contudo, uma não faz o papel da outra – são parceiras. Esta geração será tanto melhor, quanto melhor forem seus educadores, quer sejam pais ou professores.
Ao darmos bons exemplos e bons encaminhamentos, construímos uma sociedade justa e boa para pessoas, igualmente
boas, e com instrumentos para serem felizes.

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1 Comentário

  1. Marilda Alves da Silva disse:

    Muito bom! tanto o texto, quanto a reflexão. Pequenos fatos ue se tornam grandes problemas, assim como percebemos em nossa sociedade.

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