NÃO ADIANTA, EU NÃO VOU CONSEGUIR!

Se observarmos crianças brincando livremente, veremos que elas correm, que gostam de atacar, de pega-pega, algumas se arriscam nos balanços ficando em pé, outras sobem nos bancos, pulam de lugares altos, outras se jogam no chão, pulam de um sofá a outro, enfim. Nós educadores precisamos saber que uma criança quando brinca está aprendendo a se autorregular, a controlar o quanto de estresse ela suporta, a enfrentar problemas, se percebem corporalmente, aprendem a avaliar as situações e as possibilidades de risco, de fracasso e de sucesso.

Uma criança de 3 anos saiu correndo atrás de outra, um pouco mais velha. No caminho, tinha uma grande poça de água, pois havia chovido. A primeira criança pulou e prosseguiu. O menino de 3 anos caiu em cheio, no meio da poça de água. Chorando, veio pedir consolo para a professora. Como era bem preparada, a professora o acalmou, assegurando que o fato ocorrido poderia ser administrado sem dificuldades. E logo perguntou se ele tinha se machucado, o que tinha acontecido e o que ele sentiu. E por último, perguntou a ele, o que poderia ser feito em outra situação semelhante, para que ele conseguisse pular sem cair.

A capacidade de manejar emoções, a possibilidade de dar a volta por cima, de enfrentar o desconhecido, de retomar, de suportar o fracasso, de bem viver o sucesso, passa pela possibilidade de experimentar situações que demonstrem à criança que ela é capaz, ou não. Ao se dar mal em uma situação, ela aprende o seu limite, ao se dar bem ela percebe suas possibilidades.
Claro que é fundamental que as crianças tenham educadores que ofereçam espaços educativos propícios e as reflexões necessárias para que as aprendizagens aconteçam.

“A minha mãe demora pra me pegar na escola. Está sempre atrasada, é uma chatice. Estou muito brabo com ela.” Afirma M. de apenas 5 anos. O que M. não sabe é que a mãe enfrenta um enorme trânsito, sai correndo do trabalho e ainda, tem de voltar para o expediente da tarde. Para agravar a situação, a mãe ao invés de contar essa história para o filho, pede desculpas …

Quando a criança é superprotegida, quando os pais não são francos, pontuando o que é bom e o que é ruim, elas acabam não se percebendo como pertencentes àquela rotina e desconhecendo o funcionamento do mundo ao seu redor. Ao serem atendidas na totalidade de seus desejos, ignorando os esforços de quem os atende, acabam construindo uma noção errônea sobre si mesmo e seu potencial resolutivo. Como não estão acostumadas a realizar, são apenas as que ordenam ou pedem, acham que as coisas acontecem de modo instantâneo, quase mágico, ou ainda, facilmente. Isolados em seu mundo de prazeres, ignoram o trabalho como fonte de desenvolvimento, de aprendizagens e de prazer. Destituídos da possibilidade de viver um processo, tornam-se frágeis e incertos interpretes da realidade.

Um pai me procurou e pediu: “Explique pra ela que, se ela pediu a bicicleta, ela tem de aprender a andar. Ela faz escândalos e afirma que não consegue pedalar, que vai cair. Se as outras crianças aprendem, por que ela não aprende?” Perguntei à criança se ela já tentou andar e ela me respondeu que sim. O pai afirmou que apenas duas vezes e já desistiu. “Mas você precisa tentar, observar o que acontece com teu corpo, com a bicicleta, para descobrir como se equilibrar nela.” Afirmei. Ela retrucou, autoritária: “Eu já fiz tudo isso e não deu certo! Não adianta, eu não consigo.” O pai, impotente diante do poder da filha, lamenta ter gasto tanto para nada e a história tende a terminar, se ninguém interferir. Por sorte, um tio se propôs a ensinar. Deu as garantias que a menina precisava, ensinou-a, encorajou-a com histórias de fracassos e de sucessos e ela, depois de várias tentativas, conseguiu!
Desacostumada a brincar, a arriscar-se, a perceber-se e a ter mediações educativas adequadas, a criança não se percebe, não presta atenção na especificidade da ação que ela objetiva, desconhecendo seus limites e as suas potencialidade, torna-se medrosa ou inconsequente.

“Eu faço cupcake em casa que é uma delícia, né mãe?” Disse-me G. de 4 anos. Pedi que ela me ensinasse. Ela olhou pra mãe e respondeu: “Explique pra ela.” Perguntei: “Mas você sabe fazer ou não sabe?” “Sei, mas só com ela junto…” A mãe piscou pra mim e afirmou que ela sabia fazer, sim.

O autoengano, além de confundir, passa uma mensagem errônea do que seja trabalho, processo, conquistas e aprendizagem. O desenvolvimento das competências sócio afetivas são as premissas para que uma pessoa torne-se resiliente, pressuposto para aprender.

Não podemos esquecer que educar é um verbo, que pede intencionalidade, compromisso, atenção e cuidado amoroso.

Psicopedagoga, palestrante, professora em cursos de pós graduação na área da Aprendizagem e autora de vários livros. www.isabelparolin.com.br

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