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Bons tempos em que chamávamos as professoras de “tias”?!

ALFABETIZAÇÃO:

REESCRITA E AVALIAÇÃO DE PRODUÇÕES TEXTUAIS

“’É atuando no nível proximal de desenvolvimento que o professor encontra espaço para sua intervenção: constatando o que a criança já consegue realizar sozinha, ele partilhará com ela seus conhecimentos, auxiliando-a a realizar tarefas cada vez mais complexas. ”
Lev Sminovich Vygotsky

Pressuposto maior ►
O homem se constitui via linguagem.

O ser humano se caracteriza pela faculdade de poder operar também na ausência do objeto, com o auxílio de símbolos. Isto o projetou para a instância das idéias representando a matéria e forneceu-lhe condição para pensar antes de agir puramente por instinto. Por isso se afirma que pensamento e linguagem são inseparáveis. Trabalhando um, automaticamente se está determinando o outro.

Pressuposto de área ►
A linguagem como fator de interação da humanidade.

Para sobreviver o ser humano precisou agrupar-se. Essa necessidade gerou a produção da linguagem. É através dela que ele compreende e representa o mundo que deseja, que imagina e que constrói.

Pressuposto específico ►
Avaliar e reescrever como práticas vitais para o avanço do aprendiz no processo de hominização.

Se as faculdades mentais superiores se ampliam a cada novo aprendizado, interferir na produção textual do aluno, partilhando conhecimentos lingüísticos, é fator de vital importância para o desenvolvimento humano.

É sempre delicado abordar-se o tema avaliação sem antes clarificar algumas questões de ordem conceitual. A começar pelo que significa avaliar e para que se avalia. Logo, é bom que, neste caso, se parta do princípio de que o ato avaliativo está dissociado do fator nota, mensuração ou grau. É, antes, um meio para o professor redimensionar a prática pedagógica, objetivando uma aprendizagem cada vez mais eficaz. Diagnosticar o processo ensino-aprendizagem é a função da avaliação na perspectiva aqui adotada. E, ousamos afirmar, que esta função tem muito mais influência sobre o papel do professor do que sobre o desempenho do aluno.
Mas, ao nosso ver, isso explicitado, ainda não seria suficiente para que partilhássemos idéias sobre as questões propostas neste tema. Seria necessário que afunilássemos ainda mais nossos campos de abordagem. Por isso é preciso, com o mesmo nível de urgência da colocação anterior, deixar claro para que e como se avalia.
A avaliação, à luz da concepção aqui trabalhada, tem a finalidade única de detectar o que o aluno precisa para escrever cada vez melhor (Para quê?) e isso deverá ocorrer através do detalhamento dos conteúdos de Língua Portuguesa em critérios de avaliação (Como). Isso significa compreender que cada conteúdo desta área do conhecimento tem muitos e diferentes níveis de complexidade, que precisarão ser trabalhados através de distintas estratégias e diferentes práticas de ensino. É o critério (o conteúdo em uso) que determinará o como e a forma da elaboração didática que receberá o tratamento daquele conteúdo em sala de aula.
Outra relevante questão merecedora de reflexão e partilha é o objetivo do ensino de Língua Portuguesa. Hoje, a tônica na escola deveria ser o ensino da língua materna para ampliação da competência lingüística do aluno através do desenvolvimento das habilidades de ouvir, falar, ler e escrever. É disto que ele necessita para se consolidar como sujeito preparado para o mercado globalizado de trabalho e para se desenvolver como partícipe e atuante cidadão. Isso posto, fica implicitamente colocada a concepção histórica de homem e de linguagem que embasam este breve espaço de considerações.
Assim, tácito deveria estar onde se quer chegar (na competência), de que forma (ouvindo, falando, lendo e escrevendo) e para quê ( transformação e não reprodução).
E, para finalizar, ou melhor, para iniciar, há que se desvelar a relação de dependência existente, nesta perspectiva de trabalho, entre o ato de avaliar e a tarefa de reescrever o texto do aluno. Afinal, para que reescrever?
A reescrita do texto do aluno só tem um objetivo: tornar o texto claro para que este atinja eficazmente o leitor e se efetive, assim, o ato interlocutivo, isto é, que se realize a comunicação. Claro é que o aluno, de qualquer nível de escolaridade, dificilmente escreveria um texto perfeito, pois todo texto é passível de ser melhorado e, portanto, de reescrita. Assim, o que o aluno conseguir colocar no papel no momento de sua produção textual representa o que ele consegue realizar sozinho, isto é, significa a sua zona real de desenvolvimento com relação à apropriação da Língua Escrita.
A partir dos conceitos que ele demonstrou dominar é que se planejarão atividades e estratégias de ensino-aprendizagem para que ele avance. Nesse momento, o professor estaria atuando na zona potencial de desenvolvimento, realizando com os aluno tarefas que ele ainda não pode realizar sozinho. O professor faria, portanto, a ponte entre aprendiz e conhecimento, utilizando como base o conhecimento do aluno e sua intervenção se daria no nível de desenvolvimento proximal, determinando a ampliação da zona real de desenvolvimento para que esta seja, mais uma vez, e sempre, realimentada e ampliada indefinidamente.
Todo conhecimento adquirido em situações de aprendizagem ( não só de ensinagem ) é base referencial para a consolidação de novos conhecimentos. Por isso, reside nesse pressuposto teórico a insistência feita para que se coloque o aluno escrevendo como sabe o mais cedo possível, pois é somente detectando o que ele introjetou dos conhecimentos trabalhados sobre a língua escrita que o professor poderá fazê-lo avançar e ampliar sua competência como sujeito letrado.
Nesse sentido vale a pena insistir em duas premissas básicas para se alfabetizar:

► O aluno deverá LER mesmo que ainda não saiba ler

► Embora não sabendo escrever, o aluno deverá ESCREVER

Respeitar essas premissas implica em organizar-se didaticamente para que o cotidiano da sala de aula seja um eterno laboratório de leitura e de escrita, quer dizer, o planejamento deverá contemplar atividades para que, nos duzentos dias letivos, o aluno seja colocado em situação de produção textual, pelo menos, duzentas vezes no ano (uma vez por dia), para que se possa reescrevê-las e assim detectar que tipo de dificuldade aquela turma está enfrentando e do que está necessitando.
Dentre suas necessidades, obviamente, encontrar-se-á a necessidade de observar os conteúdos que não dominam sendo utilizados em textos impressos, de boa qualidade e que tenham função social. Isso acarretará no processo pedagógico a urgência de outra contemplação: a leitura como fonte de informação, comunicação, orientação e prazer. Ou seja, a prática de leitura deverá ser constante e diversificada para que o aluno leia ou escute, no mínimo, um texto por dia. O objetivo desta proposta não visa somente a formação, a longo prazo, de um Brasil leitor. Antes, tenciona-se mediar, através da leitura e discussão dos textos lidos, conhecimentos básicos de Língua Portuguesa para que haja o avanço necessário da turma como um todo e que esses conteúdos refletidos comecem a ser utilizados nas produções individuais.
Mas não seria só esse o caminho a ser trilhado para o sucesso da aquisição da língua escrita pelo aluno, pois há uma prática de suma importância que em muito determinará o grau de apropriação dos saberes lingüísticos se bem desenvolvida em sala de aula: a produção coletiva de textos. É através dela que o aluno poderá escrever mesmo sem saber escrever.
Para que se alfabetize um indivíduo é necessário que ele consolide um conteúdo básico a respeito da escrita: a relação existente entre a língua oral e a língua escrita, isto é, o início dessa aquisição se dará quando o aluno abstrair o conceito de que tudo o que ele fala pode ser escrito e que aqueles sinais grafados representam unidades sonoras de palavras que utilizamos para interagir com o mundo em que vivemos e não representam as características físicas dos objetos. Pelo grau de sua complexidade, isso é um aspecto conceitual dificilmente entendível rapidamente pelas crianças, que às vezes, são levadas a associarem a escrita das palavras diretamente com o desenho ou com outras formas de representação e não são esclarecidas quanto à representação dos sons da fala. Para superar esse tipo de dificuldade, sugere-se que a produção coletiva seja extremamente intensa, pois ela dará suporte concreto para o aluno para a formação do conceito do que é um texto e como se escreve um.
O que se pretendeu aqui demonstrar é que a avaliação não pode ser tomada como apêndice do processo de aprendizagem, com caráter de verificação ou classificação como figurou seu lugar e importância no ensino tradicional. Ela faz parte do processo. Ou melhor, é ela que move a prática pedagógica e determina o sucesso ou o fracasso de todo trabalho empreendido em sala de aula. E o ato de reescrever, ou reestruturar o texto produzido é o instrumento no qual se apóia todo o processo.
Concluindo, reescrever é o mesmo que avaliar, pois tomando a avaliação como uma via de mão dupla, ao mesmo tempo em que detecto o que o aluno já se apropriou, evidencia-se o que preciso trabalhar para que ele avance no processo aquisitivo da língua escrita.
Sandra Bozza
Março de 2005

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Isabel Parolin

Psicopedagoga Clínica. Atende crianças e jovens em seus processos de aprender e as famílias dessas crianças, redimensionando as dinâmicas familiares. Consultora Institucional de Escolas públicas e privadas em vários estados brasileiros, promovendo qualificação dos educadores, quer sejam os professores, orientadores ou os pais dos alunos.

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