A escola aprendente do Século XXI – Formar professores para transformar.

 

A FRONTEIRA ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA: CONHECIMENTOS E APROXIMAÇÕES POSSÍVEIS

[1]Isabel Parolin

 

 

“Nós nos saímos muito bem nas avaliações institucionais e nossos alunos fizeram bonito no ENEM. Além de termos dado um duro danado nas questões do ensino por áreas, pegamos firme nas questões de relação, tanto com nossos alunos, quanto com suas famílias.” (depoimento prof. de Português  – Ensino Médio)

 

“Nos ficamos muito felizes com nossos resultados que obtivemos no IDEB. Nossos professores estudaram bastante e mudamos algumas condutas dentro da secretaria de educação. Uma delas, a que eu sei que muito te interessa, é que passamos a ter trabalhos mensais com os pais, tanto de esclarecimento das rotinas das escolas, quanto desenvolvendo temas para que eles pensassem mais sobre a vida que estão oferecendo aos seus filhos, sobre o valor da escola, sobre o quanto uma pessoa precisa estudar para superar a ignorância. Sabe que, lógico, não tivemos a adesão total, mas está valendo e muito! Acho que, depois desse resultado, vamos aumentar o número de pais nos programas..” (Diretora de ensino municipal de SP)

 

 

Analisando os resultados das avaliações oficiais (SAEB, IDEB, PISA) que estão disponíveis na internet, constata-se que “todas” (dado importante) as escolas que se saíram bem nessas avaliações, tanto do ensino fundamental quanto do médio, apontaram, dentre outras ações, o desenvolvimento de um trabalho com as famílias de seus alunos. Descreveram diferentes estratégias de trabalho, no entanto, os objetivos eram claros:, melhorar a qualidade do ensino, criar uma cultura do papel da escola e da família no processo de aprender e ensinar;  fortalecer a relação com a família e da família com os profissionais da escola, evitando invasões de fronteiras de ambas as partes, e o empurra-empurra, cujo resultado (lamentável) tem sido culpar a criança ou jovem por não aprender.

Arrisco afirmar que as escolas que têm um olhar para a família como parceiras no processo educativo, desenvolvem, além de melhores rotinas de aprendizagem, laços de confiança com a comunidade educativa e  passam a “fiar com” (junto) a construção de um aprendiz melhor instrumentalizado para ser o cidadão de que a nossa sociedade precisa e deseja.

Quando se pensa em aprendiz, está-se falando de um sujeito que tem clareza de ser dele o movimento de aprender  – eu aprendo –  no entanto, para apropriar-se do que a humanidade já produziu,  precisará do olhar atento e a mediação competente dos educadores que estão em sua jornada, quer sejam seus familiares ou seus professores.

É fato e consenso que, desenvolver um bom relacionamento com a famílias dos nossos alunos, é ponto fundamental para quem quer desenvolver um bom trabalho educativo, entretanto, a clareza dessa fronteira relacional está, ainda, por ser construída. Constata-se que muito se fala sobre o tema, mas pouco se direciona para ele de modo competente.

O que é competência da escola e o que é da família? O que a escola pode esperar da família no processo de educar uma criança? Uma família disfuncional pode impedir que a escola cumpra seu papel de ensinar? Por que, afinal, a escola tem de ouvir a família, se esta traz muito mais complicações que soluções? Como trabalhar com as famílias, em parceria, sem perder o sentido de escola?

Perguntas complexas que merecem mergulhos reflexivos, igualmente complexos.

Vamos apontar alguns caminhos que, se refletidos, discutidos e percorridos em grupo (no seu grupo e na sua escola) podem clarear e ajudar muito.

Indiscutivelmente a escola é espaço para apreender os conhecimentos que permitem a inserção social. Espera-se que uma criança, ao ir à escola, possa ser o construtor de uma realidade diferente e melhor do que a que agora se vive – uma sociedade cada vez mais de Todos e para Todos.

Uma pessoa se faz em relação com seus educadores e a comunidade na qual está inserida. Notem que explicitei “seus”, querendo subentender que o sentimento de pertença a esses dois grupos (não apenas a eles) é que dará o disparador para sua forma de entender o mundo e o modo de viver e conviver.

Vivendo conforme seus familiares vivem, a criança construirá sua modalidade de aprendizagem, que será fortemente influenciada pela modalidade de ensino de seus professores. Vale afirmar que a qualidade das relações que a criança estabelece ao longo de sua formação é que vai potencializar, ou não, sua atividade cognitiva. (Isso é Wallon)

Parece obviedade desejar que a família cumpra  seu papel formador, permitindo que a criança construa sua pertença ao grupo familiar, ofertando os limites necessários e explicitando os princípios que os geraram, responsabilizando-se nessa construção. O pertencimento e a individuação de uma pessoa acontecem no convívio familiar, na partilha de valores e ideias, na forma como desempenham suas tarefas e como enfrentam medos, desafios, derrotas e sucessos.

Cabe uma alerta importante: a escola, mesmo sem a desejável parceria da família, tem como trabalhar e deveria buscar bem desenvolver seu papel formador. Claro que uma família disfuncional atrapalha muito o bom trabalho educativo, mas, com a desculpa de que a família é desorganizada e não ajuda,  muitos educadores deixam de cumprir seu papel, que nesses casos, é ainda mais valioso, por ser a única referência da criança.

Uma família precisa entregar o seu filho à escola, e esta precisa receber o seu aluno. Dessa forma ele será da família e da escola, ambas se responsabilizando por ele. Para que se obtenha essa clareza e desenvoltura, a escola tem trabalhado na busca do entendimento dessas fronteiras, das mudanças na organização e dinâmica da família. Reflitam sobre os exemplos abaixo:

 

“A mãe da L. nunca vem às reuniões da escola e, depois, fica pedindo pra gente escrever o que foi decidido em reunião, que não entendeu tal coisa. Se fosse interessada tinha vindo! Não vem e quer as informações… Uma chatice essas mães“.  (Coordenadora da EMES)

 

“Eu trabalho num lugar por escalas e turnos e pra eu sair no meu turno eu preciso saber do horário da reunião com uma semana de antecedência. Elas não se organizam e depois dizem que eu não fui à reunião porque não quis. Eu tenho chefe, tenho um contrato e tenho regras a cumprir. Custa planejar essas reuniões com antecedência?” (mãe da EMES)

 

“Tua professora não te ensinou a ter bons modos? Não sei por que eu te mando pra escola!” (da família)

 

“Mãe, precisamos que você faça o R. estudar e que ele faça as lições. Ele anda desobediente e está fraquinho nas provas. Desinteressado e meio conversadorzinho.” (Prof. de R. 6 anos)

 

Enfim, espera-se que enganos como os dos relatos acima não mais aconteçam, e para que isso se faça verdade, uma boa estratégia é iniciar trabalhos para estudar e entender as famílias dos nossos alunos. Note-se que esse trabalho precisa começar na escola para que essa delicada e necessária relação se fortifique pelos laços do conhecimento e não dos preconceitos ou achismos..

Quando as fronteiras relacionais entre a família e a escola são construídas a partir de diálogos, escutas e olhares atentos, quem sai ganhando é a criança, que aprende; a escola, que bem desenvolve sua missão de ensinar; a família, que  desenvolve de maneira adequada o papel constitutivo do sujeito e a sociedade que se torna mais rica e com melhores seres humanos.

 


[1] Psicopedagoga clínica; consultora institucional de escolas públicas e privadas; professora em cursos de pós-graduação na área da Aprendizagem e relação família e escola. Palestrante para pais e professores. Pesquisadora do grupo GAE-PUCPR. Autora de vários livros. Contato: www.isabelparolin.com.br

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.