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Intimidade, espaço escolar e WhatsApp

A reflexão em torno dos conceitos de intimidade, espaço escolar, o aplicativo WhatsApp e os grupos de mães da escola, tornou-se necessária, para a comunidade escolar, a partir de alguns episódios que são relatados, tanto pelos professores e coordenadores, quanto pelos familiares que compõem a comunidade escolar.

Saliento que as queixas que acontecem na escola ou sobre a escola, com enfoque no uso do grupo de mães da turma do filho, no WhatsApp, não trazem a palavra intimidade. Esse complexo conceito eu estou agregando, tornando esse grupo de palavras um trio.

Intimidade subtende proximidade, ingrediente indispensável nas relações em que se pressupõem a necessidade de proximidade afetiva emocional. Não podemos, também, deixar de considerar que a intimidade se faz em diferentes âmbitos: física, religiosa, intelectual, cultural, espiritual, sexual e afetiva. A intimidade física tem conotação diferente de proximidade afetiva, assim como a intimidade intelectual da amorosa, a espiritual com a cultural, dentre outras. Uma pessoa pode sentar-se um ano inteiro ao lado de outra e não desenvolver intimidade relacional com ela, apesar de desfrutarem o mesmo espaço, rotinas, processos. Portanto, poderíamos entender que a intimidade se faz na partilha, na relação e nas narrativas pessoais, ou seja, na mutualidade em que um afeta o outro emocionalmente, não apenas com sua presença, mas, sobretudo, na partilha reflexiva, consciente e discursiva.

Esse pequeno recorte, no amplo conceito de intimidade, é para que se perceba que é impossível que o processo de aprender e ensinar aconteça, sem que o ensinante e o aprendente vivam e desfrutem de algum grau de intimidade. Essas trocas, que tornam as pessoas intimas, dão-se nas dimensões pessoal, relacional e afetivas/cognitivas. Estão relacionadas com a história de cada um, do plano de vida que cada um prospectou para si mesmo, das possibilidades de aprender, das disponibilidades para estar inserido em um grupo de aprendizagem, dos mitos que cada um construiu acerca de si mesmo e do mundo, das estratégias disponíveis para resolver situações complexas. Confiança, respeito, solidariedade são alguns dos valores que habitam os espaços de aprendizagem e os corredores da escola.

Tendo-se como pressuposto, portanto, que a sala de aula é espaço em que se desenvolve algum grau de intimidade para que o processo de aprender e de ensinar ocorra, as interferências vindas de fora do grupo precisariam estar muito bem alinhadas, não apenas com o planejamento como um todo, mas com os acontecimentos objetivos e subjetivos, com o fluxo do grupo, ou seja, com tudo que aconteceu anteriormente e o que acontece na aula – o processo da aprendizagem.

O espaço escolar é um “lugar”, objetivo e subjetivo, em que o ensinante (quer seja uma criança, um jovem ou ainda, um adulto) apropria-se do conhecimento socialmente disponível e o reconstrói, refazendo-se como sujeito, numa relação afetiva emocional com seu ensinante, que favorece essa dinâmica educativa.

O afastamento da família, a inserção num grupo de aprendizagem e a possibilidade de experimentar e de partilhar outras culturas, outros saberes e refazer-se frente a essa inserção é o maior objetivo da escola e a grande oportunidade do aprendente.

Quando a família interfere nesse complexo processo, dando opiniões que nascem de análises rasas e a partir de pequenos segmentos do processo educativo, solapam o objetivo maior da escola: construir um cidadão apto ao enfrentamento da sociedade contemporânea, com instrumentos para resolver situações complexas com adequação e, sobretudo, de ser uma pessoa capaz de aprender a aprender, a conviver, a conhecer e a ser.

Os APPs têm simplificado a vida dos usuários, o que é fantástico numa sociedade cujas famílias têm tantos compromissos. No entanto, no caso da escola e dos espaços de aprendizagem, não cabe nenhum tipo de simplificação. Têm-se constatado que os grupos de pais do WhatsApp muito mais têm roubado tempo das professoras para resolver questões que não deveriam estar fazendo parte do que chamamos da intimidade de sala de aula. Claro que a participação é sempre bem vinda, no entanto, essa partilha necessita ser administrada com menos emoção e com mais conhecimento, com melhor visão de grupo e de processo educativo, menos parcial, pois a sala de aula é um espaço coletivo, de todos e para todos os envolvidos.

As professoras recebem inúmeras mensagens a noite, nos finais de semana, em meio as aulas! Antes de mandar sua opinião no grupo de pais, antes de sugerir algum procedimento ou atividade, antes de avaliar alguma ação que aconteceu em sala de aula, avalie melhor o seu ponto de vista, amplie seu olhar, respire fundo e espere um pouco a emoção arrefecer… E, se for o caso, vá à escola entender melhor o que está acontecendo.

Isabel Parolin

Pedagoga, Psicodramatista, Psicopedagoga e Mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Palestrante para professores e famílias. Professora em cursos de pós-graduação na área da aprendizagem. Consultora de várias instituições públicas e privadas. Autora de vários livros destinados à aprendizagem e educação de filhos. Contato: www.isabelparolin.com.br

 

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Isabel Parolin

Psicopedagoga Clínica. Atende crianças e jovens em seus processos de aprender e as famílias dessas crianças, redimensionando as dinâmicas familiares. Consultora Institucional de Escolas públicas e privadas em vários estados brasileiros, promovendo qualificação dos educadores, quer sejam os professores, orientadores ou os pais dos alunos.

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