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O WHATSAPP E AS COMUNIDADES DE MÃES

Isabel Parolin

Não ter resposta é confirmar-se ausente. Viver exige perguntas e eu, mudo, não sabia responder. (QUEIRÓS, 2011, p.30)

Recebi o e-mail que reproduzo abaixo, na mesma época que estava lendo um livro inspirador, de onde tirei a citação que inicia o texto. Ambos aguçaram minha memória para algumas vozes guardadas aleatoriamente e que, ao se juntarem, começaram a fazer sentido.

Fui ao seu site em busca de algum artigo que pudesse me apoiar para uma reunião que terei de fazer com um grupo de mães, que eu tenho tido repetidos problemas. Sou orientadora educacional de uma escola particular e esses grupos de WhatsApp tem sido enlouquecedores. As coisas que acontecem na sala de aula passam a ser discutidas fora da escola, pelo grupo de mães que não estavam em sala, repercutindo nas crianças e na rotina escolar, de modo inconveniente. As mães pensam que, sendo a maioria, estão com a razão. O que nem sempre, a maioria do grupo do Whats, representa a maioria mesmo. Muitas mandam carinhas sem ler ou refletir sobre o que aparentemente concordaram. Tem sido difícil essa interferência. Você não acha que é invasão? Você pode colaborar dando sua opinião, já que sua área de estudo é a relação entre a família e a escola? Minha reunião será depois de amanhã. Agradeço-te e aguardo.

Sim, quero colaborar. Esse movimento, tão atual, que são relatados sobre os diferentes olhares, tanto da família, quanto da escola, propiciam diversos caminhos reflexivos. Escuto as conclusões e queixas, que advém desses grupos e penso na repercussão e nas consequências desses movimentos nas salas de aulas. Essa prática das mães se comunicarem entre si, via WhatsApp, se popularizou em todo o Brasil e nos diferentes seguimentos da sociedade. É a primeira coisa que as mães fazem, no inicio do ano: criar o grupo.

Antes de tudo, quero salientar os inegáveis benefícios que a farta informação oferece à sociedade, além da facilidade de aproximação que a web e suas diferentes manifestações propiciam. Os grupos que funcionam bem não são, nesse espaço, objeto de análise. Pretendo partilhar, nesse pequeno artigo, os perigos desses grupos, se não forem administrados de modo responsável e com bom senso. O meu olhar investigativo foi direcionado à dinâmica de sala de aula e à qualidade das relações que lá se estabelecem.

Imagino que o caminho natural seja respondermos: Qual o objetivo desses grupos? Entendo que seja socializar, confraternizar, informar, trocar ideias, inteirar-se do que as outras famílias percebem, avaliam e pensam a respeito do andamento da turma e, além disso, aproveitar as inúmeras possibilidades relacionais que a sala de aula oferece a todos os envolvidos. Perfeito…  se todos que compõem o grupo tiverem clareza da função social da escola; de como se constrói o aprendiz; do valor da escola para o aluno (notem que escrevi aluno e não filho) e, sobretudo, do importante papel da professora, não somente como gestora da sala de aula, mas como mediadora das relações de aprendizagens que acontecem a partir da qualidade dessas mesmas mediações.  Os alunos, juntamente com seus professores, constroem a sua dinâmica a partir de contratos estabelecidos entre eles e destinados a eles. Ou seja, a sala de aula é espaço do aluno e a mãe deveria respeitar o grupo no qual o filho está inserido. O grupo é deles, os pais são coadjuvantes.

Partindo-se desse olhar, penso que a orientadora educacional, autora do e-mail, está correta: é invasão. Interferência que vem de fora do grupo da sala de aula. Traz normas para o grupo, sem sequer ser debatido pelo grupo. Pode desautorizar a professora, enfraquecer o grupo em sua autonomia. Nesse momento surge outra pergunta: E as mães precisam estar inteiradas de tudo que acontece entre os componentes do grupo de sala de aula? O que, muitas vezes acontece, é que esses grupos de Whats funcionam como espiões da sala e da escola e não como grupo de apoio. Claro que os pais podem colaborar: se a escola pedir ajuda, quando perceberem algo extraordinário, mas sempre com e para a equipe da escola e não fora dela.

Para aquecer ainda mais, compartilho com o leitor alguns outros depoimentos que, espero, colaborem na tentativa de responder o e-mail.  Objetivo que a leitura dos casos possa, per si, tornar-se fonte de reflexões construtivas, que motivem melhor uso desses grupos.

Caso 1: Mãe: “Estou preocupada com meu filho. Ele tem poucos amigos.”

Psicopedagoga: Ele se queixa pra você que não tem amigos? 

Mãe: “Não, mas eu vejo pelo grupo do Whats que os meninos marcam passeios, churrascos e ele não é convidado.”

Psicopedagoga: Ele nunca é convidado pra nada? Continuei, querendo entender.

Mãe: “Não, ele até que recebe convites, mas não a maioria deles.”

Psicopedagoga: E ele precisa ser sempre convidado? Se ele não se queixa…

Mãe: “… (suspiro) Não sei. Fiquei na dúvida.”

Caso 2:  Menino 8 anos: “Minha mãe me proibiu de brincar, no recreio, com o XX. A mãe dele foi grossa com a mãe no Whats e agora elas estão combinando coisas por um outro grupo e estão deixando a mãe de fora. A mãe disse que essa turminha ( do Whats) é #$% e eu não posso mais ser amigo dele.”

Professora do Menino: “Mas vocês sempre se gostaram, são tão amigos… Ele está te procurando, não está? Então é sinal que ele não está nem ai para o que aconteceu…”

Menino: “Mas como eu vou desobedecer a mãe?”

Professora: “E você não vai mais brincar com ele por causa disso? Vocês deixaram de ser amigos? “

Menino: “Eu ainda gosto dele, mas a mãe dele é uma desocupada que vive só pra ficar no WhatsApp e minha mãe trabalha duro…”

Professora: “Esse motivo é suficiente pra vocês romperem a amizade? E quem te disse que a mãe dele é “desocupada”? Você não acha que isso não deve ser sua preocupação?”

Menino: “A mãe disse. Ela está até querendo sair do grupo…  Ninguém a defendeu… Uma pena, eu gostava muito do XX.”

Caso 3:  Diretora: “Os grupos de mães do WhatsApp tem sido muito mais terríveis que produtivos.. Mais atrapalham que ajudam. Vira uma fofocarada, um disse-me-disse. Um tal de fulana também acha… Nós resolvemos que… Nossa grupo chegou a conclusão que… Deus me livre! Uma trabalheira danada. Elas acabam interferindo num universo que não está na competência delas. Fazem julgamentos e avaliações sem, verdadeiramente, se interarem da situação.”

Caso 4 – Mãe: “Nosso grupo de mães do Whats já percebeu que a professora da turma não é boa. A maioria dos alunos não está entendendo a matéria, ela dá muita lição, sobre coisas completamente fora do mundo das crianças. Vamos pedir que a diretora substitua a professora.”

Caso 5 – Uma representante das Mães para a professora da turma: “Nós marcamos tudo pelo WhatsApp. Se ela não lê o que postamos, ela que saia do grupo. Agora dizer que nós não avisamos… foram mais de 150 postagens. Tenho aqui comigo, quer ler?”

Professora da turma: “Pois é, mas no tipo de trabalho dela, ela não consegue acompanhar a profusão de mensagens que vocês trocam. Por isso ela veio queixar-se. Os combinados têm de passar pela escola, pelas agendas das crianças. Eu, que sou a  professora da turma, também não sabia!”

Vamos pensar sobre essas situações?

No caso 1 fica claro que a mãe desestabilizou-se diante de algo que acontece fora do seu núcleo de relacionamento. Na escola o filho dela tem amigos e fora também, num outro contexto. Por que as famílias precisam ser amigas dos amigos dos filhos? Os filhos não podem ter seus amigos e os pais os seus? O menino em questão é mais reservado, prefere relacionar-se com um número menor de crianças. Qual o mal disso?

Que pena que o menino do caso 2 esteja sofrendo as consequências de algo que aconteceu em outro contexto. As crianças, na escola, são amigas! Os pais não precisam ser amigos, também. Basta que respeitem as escolhas dos filhos. Não há nada que desabone a amizade entre eles. O desentendimento foi dos adultos e fora da escola… A amizade passa por outras questões, que não apenas convivência.

A diretora do caso 3 nos faz lembrar que a escola é uma instituição que está entre a família e a sociedade. Ela reproduz os valores da sociedade, mas é espaço protegido. Valioso lugar para as crianças aprenderem, em grupo, a serem individualidades. A família faz parte com seus valores, cultura, especificidades, etc. Porém, o distanciamento da família ajuda as crianças a construírem sua pertença a um grupo que não é sua família. O sentimento de pertencer ao grupo de sala de aula ajuda as crianças a perceberem-se pertencentes a sociedade na qual vivem. As discussões, sem o embasamento da situação, dos fatos e clima emocional que aconteceu em sala de aula, podem virar fofocas sem fundamento, pouco colaborativas e, às vezes, desagregadoras.

Que conceito terá a mãe do caso 4 sobre ser uma professora competente? Quais as qualidades e a formação que tem de ter uma professora? Penso que os pais podem auxiliar bastante sobre a repercussão do desempenho de uma professora, contudo, acho perigoso o grupo ter resolvido  “pedir que a diretora substitua a professora”. Se as crianças ouviram os comentários, como elas irão desempenhar, em sala de aula, seus papéis de alunos? E se a diretora, realmente, tirar a professora? Como repercute essa demonstração de poder para a comunidade e pra os outros professores? E se a professora permanecer, como fica o clima? O que significa ser boazinha? É fazer o que a criança quer (ou os pais querem), ou propor o que as crianças precisam? Enfim, antes de resolverem algo (será que resolvem?), precisariam fazer uma reunião com a equipe da escola para alinhar conceitos, promover compreensão e contratar um código de conduta.

Observando as pessoas em seu dia-a-dia, não consigo imaginar grandes propostas reflexivas a partir de  conversas via WhatsApp. O mundo da urgência, da impulsividade, da resposta imediata pode comprometer os rumos da educação das crianças e jovens.

Enfim, para abrir a discussão, deixo o seguinte post: Mães, cuidado para não perder “a mão” na educação de seus filhos. A escola é importante por ser múltipla e diferente da família. É valioso espaço entre a família e a sociedade e seu filho precisa pertencer, plenamente… e os pais precisam confiar nela, plenamente, também. Vale a pena levar esse tema para ser discutido nas reuniões de pais. Não podemos, em nome da boa intenção, despotencializar um espaço tão importante de aprendizagens, com questões ou opiniões que estão desconectadas da pauta da sala de aula.  ☺☺☺

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Intimidade, espaço escolar e WhatsApp

A reflexão em torno dos conceitos de intimidade, espaço escolar, o aplicativo WhatsApp e os grupos de mães da escola, tornou-se necessária, para a comunidade escolar, a partir de alguns episódios que são relatados, tanto pelos professores e coordenadores, quanto pelos familiares que compõem a comunidade escolar.

Saliento que as queixas que acontecem na escola ou sobre a escola, com enfoque no uso do grupo de mães da turma do filho, no WhatsApp, não trazem a palavra intimidade. Esse complexo conceito eu estou agregando, tornando esse grupo de palavras um trio.

Intimidade subtende proximidade, ingrediente indispensável nas relações em que se pressupõem a necessidade de proximidade afetiva emocional. Não podemos, também, deixar de considerar que a intimidade se faz em diferentes âmbitos: física, religiosa, intelectual, cultural, espiritual, sexual e afetiva. A intimidade física tem conotação diferente de proximidade afetiva, assim como a intimidade intelectual da amorosa, a espiritual com a cultural, dentre outras. Uma pessoa pode sentar-se um ano inteiro ao lado de outra e não desenvolver intimidade relacional com ela, apesar de desfrutarem o mesmo espaço, rotinas, processos. Portanto, poderíamos entender que a intimidade se faz na partilha, na relação e nas narrativas pessoais, ou seja, na mutualidade em que um afeta o outro emocionalmente, não apenas com sua presença, mas, sobretudo, na partilha reflexiva, consciente e discursiva.

Esse pequeno recorte, no amplo conceito de intimidade, é para que se perceba que é impossível que o processo de aprender e ensinar aconteça, sem que o ensinante e o aprendente vivam e desfrutem de algum grau de intimidade. Essas trocas, que tornam as pessoas intimas, dão-se nas dimensões pessoal, relacional e afetivas/cognitivas. Estão relacionadas com a história de cada um, do plano de vida que cada um prospectou para si mesmo, das possibilidades de aprender, das disponibilidades para estar inserido em um grupo de aprendizagem, dos mitos que cada um construiu acerca de si mesmo e do mundo, das estratégias disponíveis para resolver situações complexas. Confiança, respeito, solidariedade são alguns dos valores que habitam os espaços de aprendizagem e os corredores da escola.

Tendo-se como pressuposto, portanto, que a sala de aula é espaço em que se desenvolve algum grau de intimidade para que o processo de aprender e de ensinar ocorra, as interferências vindas de fora do grupo precisariam estar muito bem alinhadas, não apenas com o planejamento como um todo, mas com os acontecimentos objetivos e subjetivos, com o fluxo do grupo, ou seja, com tudo que aconteceu anteriormente e o que acontece na aula – o processo da aprendizagem.

O espaço escolar é um “lugar”, objetivo e subjetivo, em que o ensinante (quer seja uma criança, um jovem ou ainda, um adulto) apropria-se do conhecimento socialmente disponível e o reconstrói, refazendo-se como sujeito, numa relação afetiva emocional com seu ensinante, que favorece essa dinâmica educativa.

O afastamento da família, a inserção num grupo de aprendizagem e a possibilidade de experimentar e de partilhar outras culturas, outros saberes e refazer-se frente a essa inserção é o maior objetivo da escola e a grande oportunidade do aprendente.

Quando a família interfere nesse complexo processo, dando opiniões que nascem de análises rasas e a partir de pequenos segmentos do processo educativo, solapam o objetivo maior da escola: construir um cidadão apto ao enfrentamento da sociedade contemporânea, com instrumentos para resolver situações complexas com adequação e, sobretudo, de ser uma pessoa capaz de aprender a aprender, a conviver, a conhecer e a ser.

Os APPs têm simplificado a vida dos usuários, o que é fantástico numa sociedade cujas famílias têm tantos compromissos. No entanto, no caso da escola e dos espaços de aprendizagem, não cabe nenhum tipo de simplificação. Têm-se constatado que os grupos de pais do WhatsApp muito mais têm roubado tempo das professoras para resolver questões que não deveriam estar fazendo parte do que chamamos da intimidade de sala de aula. Claro que a participação é sempre bem vinda, no entanto, essa partilha necessita ser administrada com menos emoção e com mais conhecimento, com melhor visão de grupo e de processo educativo, menos parcial, pois a sala de aula é um espaço coletivo, de todos e para todos os envolvidos.

As professoras recebem inúmeras mensagens a noite, nos finais de semana, em meio as aulas! Antes de mandar sua opinião no grupo de pais, antes de sugerir algum procedimento ou atividade, antes de avaliar alguma ação que aconteceu em sala de aula, avalie melhor o seu ponto de vista, amplie seu olhar, respire fundo e espere um pouco a emoção arrefecer… E, se for o caso, vá à escola entender melhor o que está acontecendo.

Isabel Parolin

Pedagoga, Psicodramatista, Psicopedagoga e Mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Palestrante para professores e famílias. Professora em cursos de pós-graduação na área da aprendizagem. Consultora de várias instituições públicas e privadas. Autora de vários livros destinados à aprendizagem e educação de filhos. Contato: www.isabelparolin.com.br

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GANHEI UM NETO QUE JÁ VEIO PRONTO!

Estávamos numa reunião, com familiares de uma escola, discutindo as mudanças que as novas configurações familiares promoveram no papel dos avós, na educação de crianças e jovens. Em meio aos depoimentos e colaborações, uma avó assim se manifestou:

Eu recebi um neto que já veio pronto. Meu filho casou-se novamente e a esposa dele, também divorciada, tem um filho de 8 anos. Ele já veio pronto! Preciso aprender a ser avó dele. Para os meus netos eu sei o que cozinhar, a sobremesa preferida deles, as brincadeiras que os distraí e, até sei bem, como fazer umas chantagenzinhas, quando necessário. Porém, com esse meu neto-novo, ainda não acertei nenhuma. A carne que eu faço, e que meus netos adoram, ele não come, porque tem cebola; faço um pudim que todos acham delicioso, ele não gosta de pudim. Quero agradar, ser avó dele, até porque a mãe da minha nora, certamente, também está adotando o meu neto… Que situação difícil! E mais: como amar igual aos netos que embalei, troquei fraldas, ensinei cantigas, contei histórias, acompanhei passo a passo? Situação complicada, vocês não acham?

Todos ficaram pensativos. De repente começaram a palpitar:

Claro que não é igual! É relação diferente. Nem tente, não vai conseguir.Avó é avó e pronto!

Acho que é diferente, sim, mas acho que você pode vir a amá-lo se vocês tiverem oportunidade de se relacionarem. Se tua nora deixar, se os outros avós não te cortarem, se teus netos não ficarem com ciúmes, se você estiver afim, mesmo! Mas, que a situação é complicada, isso é!

Não acho tão complicado assim. É simples: não é neto! É outra coisa, menos neto. Neto é aquela criança que você acompanhou, viu nascer, deu papinha, trocou fralda.

Discordo! Minha mãe mora fora, vê meus filhos uma ou duas vezes por ano e é uma super avó! Ser avó é um lugar que se ocupa na vida das crianças e não tem nada a ver com sangue, tem a ver com “estar presente”, se preocupar. As tecnologias estão ai pra isso! Tem relação com amor, com disponibilidade, com doação. Desculpem-me, mas discordo mesmo!

Bem, eu não tenho os meus pais vivos e o meu marido só tem o pai que é idoso. Temos um casal, pais de amigos nossos, que adotaram meus filhos como netos e eles adoram esses avós emprestados. Eles combinaram que são “avós de cuspe”. Não sei como seria se meus pais fossem vivos. Acho que seria diferente, mas é o que temos e tem sido bem bom, pra todos nós.

Será que a coisa não seria a gente viver o que tem? Tipo, o amor que dá pra ser, que estiver disponível, no lugar que for possível?

E assim prosseguiram, num troca muito construtiva e numa direção muito bonita.

Chegamos ao final da roda de conversas tendo claro que não existe o certo e o errado, o melhor ou o pior, mas o que é possível, de acordo com a disponibilidade e o tamanho do coração de todos os envolvidos. Os papéis afetivos são alimento importante na vida das crianças e jovens (e dos adultos, também), no entanto, para que ele se legitime como verdadeiro ou não, no seio da vida familiar, é indispensável que os adultos “autorizem”, não apenas em palavras, mas em gestos e em intenções.

A legitimidade dos avós, na vida das crianças e jovens, se fará a partir da validação, intencionalidade e capacidade de amar, incondicionalmente, de todos os familiares. Viver o que é possível, da melhor maneira.

A sociedade atual propõe uma aprendizagem, que é um instrumento valioso para o enfrentamento das situações que não soam como familiares ou corriqueiras: a flexibilidade. Ser flexível é desenvolver a capacidade de ampliar ou modificar o raciocínio e a compreensão de um determinado fenômeno. A arte de compreender, avaliar, aceitar ou não e promover mudanças, de acordo com as circunstâncias objetivas ou subjetivas, independente do nosso desejo e ideação. Sobretudo, há de se atentar para o fato de que a flexibilidade pode ser ponto positivo: quando agrega um valor à pessoa e favorece a sua adaptação – maleabilidade, no entanto, pode ser ponto negativo, quando traz como consequência fracassos. Ex: uma pessoa muito flexível pode perder seu foco. Ser flexível sem ser submisso, nem permissivo.

Os novos modelos de família, a ampla oferta de possibilidades de morar em outros locais, acabam promovendo esse tipo de reflexão e busca de outras ou novas estratégias, que ampliem o campo afetivo e cognitivo de todas as pessoas. As crianças precisam de diferentes amores, para ampliarem seu repertório afetivo e suas formas de amar. O cuidado, o carinho, a atenção e o amor são sempre bem vindos e só faz bem… a todos!

Isabel Parolin

Isabel Parolin
Pedagoga, Psicodramatista, Psicopedagoga e Mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Palestrante para professores e famílias. Professora em cursos de pós-graduação na área da aprendizagem. Consultora de várias instituições públicas e privadas. Autora de vários livros destinados à aprendizagem e educação de filhos. Contato: www.isabelparolin.com.br

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NÃO ADIANTA, EU NÃO VOU CONSEGUIR!

Se observarmos crianças brincando livremente, veremos que elas correm, que gostam de atacar, de pega-pega, algumas se arriscam nos balanços ficando em pé, outras sobem nos bancos, pulam de lugares altos, outras se jogam no chão, pulam de um sofá a outro, enfim. Nós educadores precisamos saber que uma criança quando brinca está aprendendo a se autorregular, a controlar o quanto de estresse ela suporta, a enfrentar problemas, se percebem corporalmente, aprendem a avaliar as situações e as possibilidades de risco, de fracasso e de sucesso.

Uma criança de 3 anos saiu correndo atrás de outra, um pouco mais velha. No caminho, tinha uma grande poça de água, pois havia chovido. A primeira criança pulou e prosseguiu. O menino de 3 anos caiu em cheio, no meio da poça de água. Chorando, veio pedir consolo para a professora. Como era bem preparada, a professora o acalmou, assegurando que o fato ocorrido poderia ser administrado sem dificuldades. E logo perguntou se ele tinha se machucado, o que tinha acontecido e o que ele sentiu. E por último, perguntou a ele, o que poderia ser feito em outra situação semelhante, para que ele conseguisse pular sem cair.

A capacidade de manejar emoções, a possibilidade de dar a volta por cima, de enfrentar o desconhecido, de retomar, de suportar o fracasso, de bem viver o sucesso, passa pela possibilidade de experimentar situações que demonstrem à criança que ela é capaz, ou não. Ao se dar mal em uma situação, ela aprende o seu limite, ao se dar bem ela percebe suas possibilidades.
Claro que é fundamental que as crianças tenham educadores que ofereçam espaços educativos propícios e as reflexões necessárias para que as aprendizagens aconteçam.

“A minha mãe demora pra me pegar na escola. Está sempre atrasada, é uma chatice. Estou muito brabo com ela.” Afirma M. de apenas 5 anos. O que M. não sabe é que a mãe enfrenta um enorme trânsito, sai correndo do trabalho e ainda, tem de voltar para o expediente da tarde. Para agravar a situação, a mãe ao invés de contar essa história para o filho, pede desculpas …

Quando a criança é superprotegida, quando os pais não são francos, pontuando o que é bom e o que é ruim, elas acabam não se percebendo como pertencentes àquela rotina e desconhecendo o funcionamento do mundo ao seu redor. Ao serem atendidas na totalidade de seus desejos, ignorando os esforços de quem os atende, acabam construindo uma noção errônea sobre si mesmo e seu potencial resolutivo. Como não estão acostumadas a realizar, são apenas as que ordenam ou pedem, acham que as coisas acontecem de modo instantâneo, quase mágico, ou ainda, facilmente. Isolados em seu mundo de prazeres, ignoram o trabalho como fonte de desenvolvimento, de aprendizagens e de prazer. Destituídos da possibilidade de viver um processo, tornam-se frágeis e incertos interpretes da realidade.

Um pai me procurou e pediu: “Explique pra ela que, se ela pediu a bicicleta, ela tem de aprender a andar. Ela faz escândalos e afirma que não consegue pedalar, que vai cair. Se as outras crianças aprendem, por que ela não aprende?” Perguntei à criança se ela já tentou andar e ela me respondeu que sim. O pai afirmou que apenas duas vezes e já desistiu. “Mas você precisa tentar, observar o que acontece com teu corpo, com a bicicleta, para descobrir como se equilibrar nela.” Afirmei. Ela retrucou, autoritária: “Eu já fiz tudo isso e não deu certo! Não adianta, eu não consigo.” O pai, impotente diante do poder da filha, lamenta ter gasto tanto para nada e a história tende a terminar, se ninguém interferir. Por sorte, um tio se propôs a ensinar. Deu as garantias que a menina precisava, ensinou-a, encorajou-a com histórias de fracassos e de sucessos e ela, depois de várias tentativas, conseguiu!
Desacostumada a brincar, a arriscar-se, a perceber-se e a ter mediações educativas adequadas, a criança não se percebe, não presta atenção na especificidade da ação que ela objetiva, desconhecendo seus limites e as suas potencialidade, torna-se medrosa ou inconsequente.

“Eu faço cupcake em casa que é uma delícia, né mãe?” Disse-me G. de 4 anos. Pedi que ela me ensinasse. Ela olhou pra mãe e respondeu: “Explique pra ela.” Perguntei: “Mas você sabe fazer ou não sabe?” “Sei, mas só com ela junto…” A mãe piscou pra mim e afirmou que ela sabia fazer, sim.

O autoengano, além de confundir, passa uma mensagem errônea do que seja trabalho, processo, conquistas e aprendizagem. O desenvolvimento das competências sócio afetivas são as premissas para que uma pessoa torne-se resiliente, pressuposto para aprender.

Não podemos esquecer que educar é um verbo, que pede intencionalidade, compromisso, atenção e cuidado amoroso.

Psicopedagoga, palestrante, professora em cursos de pós graduação na área da Aprendizagem e autora de vários livros. www.isabelparolin.com.br

Livro “A APRENDIZAGEM ENTRE A FAMÍLIA E A ESCOLA.”

Livro 15

Isabel Parolin

Psicopedagoga Clínica. Atende crianças e jovens em seus processos de aprender e as famílias dessas crianças, redimensionando as dinâmicas familiares. Consultora Institucional de Escolas públicas e privadas em vários estados brasileiros, promovendo qualificação dos educadores, quer sejam os professores, orientadores ou os pais dos alunos.

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Isabel Parolin
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